Mortalidade Materna e Direitos Humanos

Mortalidade Materna e Direitos Humanos

Mortalidade Materna e Direitos Humanos

No dia 20 de outubro de 2017, das 9h às 14hs, acontecerá o workshop “Mortalidade Materna e Direitos Humanos – A relevância do Caso de Alyne Pimentel”, no qual a Redeh será representada pela coordenadora de projetos Liliane Brum que, juntamente com Lúcia Xavier, coordenadora-geral de Criola, irão moderar o debate e tem como objetivo discutir sobre o caso Alyne e a sua relevância para a melhoria da qualidade da saúde materna no Rio de Janeiro, bem como avaliar a situação atual da implementação das recomendações do Comitê CEDAW.

Alyne da Silva Pimentel foi uma jovem, negra, de 28 anos, moradora de Belfort Roxo, na Baixa Fluminense (RJ), casada, mãe de uma menina de 5 ano se que faleceu em 2002 depois de uma peregrinação de 21 horas sem atendimento adequado de emergência obstétrica e múltiplas violações de direitos humanos. Sua morte levou o Brasil a sofrer uma condenação do Comitê para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher (Comitê CEDAW/ONU), que concluiu que o Estado brasileiro falhou em proteger os direitos humanos de Alyne: o direito à vida, o direito à saúde e o direito à igualdade e não discriminação no acesso a saúde. Como sanção , determinou reparação à família, inclusive financeira, e a implementação de uma série de recomendações, para que mais Alynes não morram de mortes evitáveis.

Confira a programação e o local do evento no cartaz.

 

A REDEH está de Luto!! Falecimento Ruth Escobar

A Redeh está de luto, com o falecimento de Ruth Escobar, uma guerreira que insurgiu contra os fundamentalistas de plantão, batalhou por uma cultura livre e comprometida e fez da agenda feminista sua bandeira luta.

Foto: Claudine Petroli/Estadão Conteúdo/Arquivo. Setembro, 1982.

Prefeitas de todo o mundo se unem para combater as mudanças climáticas

Prefeitas de todo o mundo se unem para combater as mudanças climáticas

 

By Paula Tanscheit    29 de Março de 2017

Women4Climate teve o lançamento oficial no dia 15 de março, em encontro em Nova York. (Foto: Scout Tufankjian/C40)

Como mulheres, sabemos muito bem que os poderosos frequentemente tentam silenciar nossas vozes quando falamos em proteger os mais vulneráveis em nossas comunidades. Estamos aqui hoje para mostrar que nos recusamos a ser silenciadas. Ao redor do mundo, nas prefeituras, em quadros corporativos e nas ruas de nossas cidades, as mulheres exigem ações para proteger o planeta das ameaças das mudanças climáticas.

Com essas palavras a prefeita de Paris e líder do Grupo de Liderança Climática de Cidades (C40), Anne Hidalgo, celebrou o lançamento oficial da Women4Climate, iniciativa dedicada ao incentivo e crescimento das mulheres nas cidades que fazem parte do C40, rede mundial das 90 maiores cidades comprometidas com o combate ao aquecimento global.

O Acordo de Paris, até então o maior compromisso assumido para frear o aquecimento global, foi na realidade concebido por um grupo de mulheres – detalhe que não ganhou tanto destaque nas notícias. A história dos bastidores da negociação contou com o papel fundamental de Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC); de Ségolène Royal, ministra francesa do meio ambiente; e de Laurence Tubiana, embaixadora da França nas negociações sobre mudanças climáticas.

Essa é apenas uma entre tantas histórias que podem inspirar e impulsionar ações de lideranças femininas a seguirem seus trabalhos. E é isso que a Women4Climate quer contar. Mais do que isso, a iniciativa pede que – por inúmeras razões, mas também porque as mulheres são ainda mais vulneráveis às mudanças climáticas – os chefes de Estado reconheçam esse trabalho e sistematicamente envolvam as mulheres na criação de políticas de baixo carbono.

Um estudo realizado pelo United Nations Population Fund analisou a relação entre as mudanças climáticas e as mulheres e concluiu que a maior vulnerabilidade feminina quanto a isso está nas barreiras sociais, econômicas e políticas que limitam sua capacidade de reação. O relatório afirma que, estatisticamente, desastres naturais tendem a matar mais mulheres do que homens. A participação feminina nas tomadas de decisão referentes às crises geradas pelas mudanças climáticas é de crucial importância para que sejam elaboradas estratégias sensíveis às questões de gênero.

Em dois anos, o número de prefeitas das cidades-membro do C40 passou de quatro para 15, representando 100 milhões de pessoas. A Women4Climate vai oferecer orientação e suporte às mulheres envolvidas na iniciativa e seus projetos de sustentabilidade. O programa é voltado às líderes de cidades e também de organizações da sociedade civil. Em paralelo, o C40 desenvolverá pesquisas para suprir a falta de informações sobre as questões que envolvem gênero, cidades e clima.

Confira o que as prefeitas de Paris, Barcelona, Madrid, Roma, Cape Town, Bangalore, Tóquio, Yokohama, Washington D.C., Varsóvia, Basileia, Estocolmo, Sydney, Caracas e Durban têm a dizer sobre a representatividade da mulher em cargos de poder e na defesa ao futuro do planeta.

 

 

MINEIRA É PRIMEIRA BRASILEIRA CANDIDATA A PREFEITA DE UMA CIDADE AMERICANA

MINEIRA É PRIMEIRA BRASILEIRA CANDIDATA A PREFEITA DE UMA CIDADE AMERICANA

Framingham terá sua primeira eleição à Prefeitura nesta terça-feira (26), após ganhar um status de cidade.

Pela primeira vez eleitores americanos poderão votar em um prefeito brasileiro.

Em Framingham, que terá sua primeira eleição à Prefeitura nesta terça-feira (26), após ganhar um status de cidade neste ano, a brasileira Priscila Sousa, 29, será um dos sete nomes presentes na cédula.

Priscila chegou aos Estados Unidos com sete anos, junto com a família. Só ganharia seu “green card” em 2004, aos 16 anos.

Depois disso cursou Ciência Política no Simmons College, em Boston, e percebeu que era a carreira política que queria trilhar.

Ela é candidata em uma das cidades com maior percentual de brasileiros nos Estados Unidos –cerca de 1.100 dos 43 mil eleitores vieram do Brasil. Segundo o censo de 2010, a cidade no Estado de Massachusetts tem 68 mil habitantes.

“Quero representar os brasileiros, mas não só. Quero fazer uma gestão que olhe para todos aqueles que não se sentem representados em Framingham hoje”, disse Sousa à reportagem, por telefone, enquanto percorria bairros do sul da cidade à véspera da votação.

Experiência

Em 2012, a brasileira trabalhou na campanha de Barack Obama. Antes disso, assessorou uma deputada estadual. Registrada como democrata, ela não terá o partido designado na cédula, como nenhum de seus concorrentes.

“O ativismo através do cargo político nunca foi estranho pra mim”, disse a brasileira, ao lembrar que a avó concorreu a vereadora em Ipatinga, Minas Gerais, quando ela era criança. “Quando cheguei nos Estados Unidos, me interessei pela história americana, e isso foi se desenvolvendo num interesse em saber como as coisas funcionavam.”

No primeiro turno, que ocorre nesta terça, apenas dois serão selecionados para seguir na disputa. O segundo turno será em 7 de novembro.

O fato de ser jovem e mulher, afirma, pode atrapalhar mais: “Você pode ser jovem e pode ser mulher, mas não pode ser jovem e mulher”.

Ela, contudo, diz que pretende “abrir caminho” para a candidatura de outros brasileiros no futuro. “Esse também é um sentido que quero dar a esse momento.”

Diário de Minas Gerais

http://www.folhadoes.com/noticia/2017/09/26/mineira-e-primeira-brasileira-candidata-a-prefeita-de-uma-cidade-americana.html

 

Os 90 anos de Elizabeth Teixeira, mulher marcada para morrer

A mística trouxe erguida a mesma bandeira de toda a sua vida: a reforma agrária e a melhoria de vida do povo do campo.18 de fevereiro de 2015

Por Talles Reis
Da Página do MST

Na pequena sala se espremiam quarenta pessoas, a maioria parentes e amigos da aniversariante; mesmo com as portas e janelas abertas, o calor era grande, passava dos 30ºC lá fora com o sol do meio dia.

O formato retangular da sala, estreita e cumprida, não favorecia a visão, dando ainda mais trabalho para uns poucos fotógrafos ali presentes, todos em busca do melhor ângulo. O bolo era alto, três andares em formato de pirâmide, bem branquinho e com rosas amarelas delicadamente colocadas.

 

O bolo estava sobre uma mesa redonda forrada com um cetim azul, na parede ao fundo também cortinas azuis, ambas combinando com o vestido da aniversariante. Tantos azuis ressaltavam ainda mais o clima de serenidade e tranquilidade que pairavam no ar.

Atrás do bolo, quase invisível, sentada, estava a aniversariante, cabisbaixa e pensativa num profundo silêncio. Lá estava Elizabeth Teixeira. Sempre ao seu lado, ali já se colocavam seus filhos Carlos, Marta, Nevinha e Maria José. Apenas quatro dos 11 que teve, dois ausentes e outros cinco falecidos de morte morrida ou de morte matada, como se diz no sertão.

O primeiro parabéns soou tímido e descompassado, como um ensaio, mas não tinha problema, pois durante aquela tarde seria cantado outras três vezes.

A temperatura na salinha aumentava, lenços, toalhas, folhas de papel, tudo valia a pena para tentar se refrescar. Apesar do calor ninguém conseguia arredar o pé dali, algo os atraía e os fascinava. E era aquela pequena mulher.

Nesta mesma casa, há mais de 50 anos, ela soube do assassinato de seu companheiro, João Pedro Teixeira, importante líder das Ligas Camponesas de Sapé, na Paraíba. Também ali foi procurada várias vezes pelo exército, ameaçada de morte por jagunços e intimidada por coronéis. Sua vida nunca mais seria a mesma.

Viúva, com onze filhos pequenos, não titubeou em escolher o caminho mais difícil, porém o mais coerente com aquilo que acreditava, decidiu seguir lutando. Assim sua família se espalhou pelo mundo. Caçada pelos militares, trocou de nome e se escondeu no interior do Rio Grande do Norte. Encontrou-se com Fidel e Che Guevara, recusou o convite de se mudar com toda a família para Cuba; a luta no Brasil naquele momento era mais importante.

 

O segundo parabéns ecoou mais forte e viçoso, não parava de chegar gente e nem a temperatura de subir. Entre múrmuros e conversas, e após olhar por longos segundos para os ‘Parabéns 90 anos’ escritos no bolo, ela começou seu discurso de aniversariante, a casa toda foi aos poucos entrando em silêncio, até reinar somente a sua voz. As palavras saíram baixas e econômicas, agradeceu a presença de todos, lembrou a luta de João Pedro Teixeira, a luta pela reforma agrária e se disse muito feliz. Bastava.

Na hora de comer o bolo as pessoas se dispersaram, em busca de ar, sombra ou um copo d’água. Ela se sentou numa cadeira no lado de fora, tentava comer seu bolo entre pedidos para tirar fotografias, cumprimentos, abraços e rápidas conversas. Atendia a todos e todas atenciosamente.

Cabra marcado para morrer

No início de 1964, ela aceitou o convite para participar de um filme, ia interpretar ela mesma numa ficção que contaria a história das Ligas Camponesas e do assassinato de João Pedro Teixeira. Os massacres de lideranças camponesas na Paraíba obrigaram a mudança de local das filmagens. Foram parar no Engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão, em Pernambuco.

O golpe militar de 1º de abril interrompeu as filmagens. A equipe e camponeses, que eram os atores e atrizes do filme, foram perseguidos e muitos presos. A proposta do filme foi abandonada… E, 20 anos depois, retomada na forma de documentário. O que teria sido daquela mulher e sua família? Onde estavam? E os camponeses do filme, o que faziam depois de tudo? Nascia assim o documentário “Cabra marcado para morrer” de Eduardo Coutinho, simplesmente um clássico do documentário nacional.

 

Antes de ser brutalmente assassinado, o cineasta Eduardo Coutinho ainda conseguiu finalizar dois outros filmes sobre ela e sua família, como um posfácio da saga familiar. Os novos filmes, juntamente com “Cabra”, foram lançados ano passado numa edição comemorativa pelo Instituto Moreira Salles (IMS). Assim, a aniversariante e seus filhos são retratados em 1962/64, 1982 e 2013. Cinquenta anos de dramas, tragédias, lutas, sonhos e esperanças.

A mesma bandeira

Ônibus, vans escolares e muitos carros não paravam de chegar. Já estava para começar o segundo momento da festa: um ato público, cultural e político de comemoração do seu aniversário. Mais de quinhentas pessoas disputavam cadeiras e sombra sob quatro tendas, estranhamente armadas bem distante do palco principal. Tantas pessoas que nem parecia uma sexta-feira véspera de carnaval. A aniversariante caminhou lentamente amparada pelos filhos e acompanhada por uma multidão de pessoas atrás dela. A reverência de alguns se misturava à emoção e alegria de outros, por poderem estar tão perto de sua pessoa.

Entre bandeiras vermelhas e símbolos da luta, a mística trouxe erguida a mesma bandeira de toda a sua vida: a reforma agrária e a melhoria de vida do povo do campo. A mesa com a sua família ficou o tempo toda cercada por uma multidão, como a lhe proteger para que mais nada lhe acontecesse, um cordão de amor, carinho e admiração.

 

No palco as intervenções foram intercaladas por músicas e apresentações culturais. Entre as falas, Anacleto Julião, filho de Francisco Julião, relembrou momentos difíceis da luta; João Pedro Stedile, da coordenação nacional do MST, disse que a presidenta Dilma Rousseff deveria se sentir envergonhada por ter recebido o voto da aniversariante e de tantos apoiadores da reforma agrária e, mesmo assim, colocar Kátia Abreu, inimiga histórica dos movimentos sociais, no Ministério da Agricultura.

Um dos coordenadores do ‘Memorial das Ligas Camponesas’ aproveitou o momento para cobrar do governo da Paraíba o cumprimento de acordos e compromissos já assumidos que visam melhorias de acesso e da estrutura do local.

O discurso de um dos seus netos, incapaz de segurar as lágrimas ao relatar as dificuldades familiares, emocionou a todos os presentes. Finalmente, o parabéns maior tocado por uma banda, sob a batuta do maestro Geraldo Menucci, e acompanhado por todos os presentes. Menucci ainda tocou o Hino das Ligas Camponesas, que ele próprio musicou a letra composta por Julião.

Como festa boa é aquela que dura dois dias, no dia seguinte as comemorações seguiram em Lagoa Seca, com a inauguração do Centro de Formação João Pedro Teixeira, do MST.

Por mais que tudo tenha sido lindo e grandioso nesta tarde ensolarada paraibana, ficamos com o sentimento de que ainda foi pouco, de que poderíamos ter feito algo mais para homenagear aquela mulher marcada para viver, parabéns Elizabeth Teixeira.

Fonte: http://www.mst.org.br/2015/02/18/o-parabens-aos-90-anos-de-elizabeth-teixeira.html

Entrevista com Sueli Carneiro

Por Fernanda Pompeu

Não é que a fila anda? Sueli Carneiro, filósofa e ativista do movimento de mulheres negras, foi uma das ganhadoras do Prêmio Itaú Cultural 30 Anos, neste 2017. Abaixo você pode ler uma entrevista dada por ela para mim em 2010. Foi originalmente publicada no livro Mulheres Fazendo Pazes, editado pela Associação Mulheres pela Paz. Apesar da passagem do tempo, as questões seguem atuais e a clareza da expressão de Sueli irretocável. Aproveite

A Entrevista
A filósofa negra Sueli Carneiro é uma das mais importantes intelectuais brasileiras. Sua expertise é a questão racial no país. Também é grande conhecedora da cultura e religiosidade afro-brasileiras. É uma das fundadoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra, tradicional ONG de ativistas negras com sede na cidade de São Paulo e referência nacional.

  1. Diversidade é uma palavra que caiu no gosto popular. Afinal, o que é diversidade?
    O conceito de diversidade tem tido múltiplos usos e abusos na nossa tradição cultural. Não é um conceito do qual eu goste muito, porque historicamente ele se presta a nivelar contradições sociais de natureza, alcance e magnitude distintos. Na prática, diversidade se transforma em uma lista de lavanderia: negro, indígena, mulher, gay, idoso, pessoa com deficiência. É um conceito que descontextualiza as diferenças socialmente construídas, pois as trata como ambivalentes. No entanto, há questões estruturais na conformação das desigualdades.
  2. Trocando em miúdos?
    Por exemplo, a subjugação da mulher é um fato milenar e internacional. A opressão do gênero feminino é estruturante das desigualdades sociais. Ela afeta no mínimo metade da população do mundo. Se você pegar a questão racial, encontra outro eixo estruturador das desigualdades. No Brasil, o negro foi usado para construir a acumulação primitiva do capital. Foi usado por meio da escravidão, para construir a riqueza nacional. Ou seja, riqueza amparada no processo de opressão. O militante negro Edson Cardoso costuma dizer: Em nenhum momento da história, os gays foram arrancados em massa do seu habitat para servir de força de trabalho escrava. Já para metade da população brasileira o processo foi esse. Essa desigualdade estrutural constrói dois Brasis, pois o IDH– Índice de Desenvolvimento Humano dos brancos é parecido com o da Bélgica, e o IDH dos negros é inferior ao de muitos países africanos, por exemplo, o da África do Sul. Em resumo, a magnitude, a natureza e o impacto social de determinadas diferenças são radicalmente distintos de outras. O que não significa que as outras não sejam importantes. É claro que todas as desigualdades precisam ser sanadas. Mas para resolvê-las é necessário mensurar e contextualizar.
  3. As empresas têm incluído o item diversidade no seu menu de responsabilidade social?
    Em termos. Observando, dialogando ou monitorando o comportamento da maioria das empresas, a gente percebe que uma empresa incluiu uma pessoa com deficiência e acha que fez a lição de casa. Grande parte das empresas brasileiras não usa o quesito cor. Ela não declara quantos negros estão em seus quadros. Justifica dizendo que o quesito cor é discriminatório. Mas no fundo esse expediente serve para escamotear o número mínimo de empregados negros fora das funções básicas. Às vezes, a empresa não tem um negro sequer fora da cozinha, da portaria ou da garagem.
  4. E no mundo da publicidade?
    A publicidade se comporta de maneira similar ao mundo empresarial. A propaganda põe um negro e um japonês no meio de uma multidão de brancos e tudo resolvido. Clientes e publicitários acreditam que um indivíduo negro é suficiente para representar cinquenta por cento da população. E, se pôs o negro, põe o oriental – que representa um por cento dos brasileiros. O problema é que para contemplar a diversidade seria necessário pensar com menos preguiça e desconstruir a hierarquia social fundamentada em raça, gênero e outras discriminações.
  5. Explique melhor.
    O que aconteceu na história do Ocidente, a partir do século 16, foi que os europeus se autointitularam o modelo da humanidade. Notadamente o macho branco europeu. Eles se instituíram ser universal, isto é, parâmetro pelo qual todos os demais seres humanos seriam medidos e avaliados. A cultura europeia, uma cultura particular, se mascarou de universal. Leia-se, cultura superior. Suas formas de conhecimento, suas técnicas, sua religião, sua estética tornaram-se a representação plena do universal humano. Ao se autoproclamar superior, essa cultura determinou que os não brancos – como suas manifestações culturais e religiosas – eram inferiores. É bom não esquecer que a hegemonia ocidental foi conseguida com uso descarado da força. Isto é, por meio da destruição, rebaixamento, desqualificação e todas as culturas e povos não brancos.
  6. Uma receita que deu em tragédia?
    Foi um processo brutal de colonização. Além de vários genocídios, a colonização destruiu possibilidades de conhecer os saberes dos outros povos. Empobreceu nossa experiência humana, dilapidou nossa experiência civilizatória. Impediu que pudéssemos trocar conhecimentos de maneira igualitária e respeitosa. Então essa é uma dimensão trágica. Fora toda a dominação, há tudo o que perdemos de possibilidades de diálogo e intercâmbio entre grupos humanos de distintas experiências civilizatórias. Mas, no Brasil há um viés interessante. Todo o esforço das elites para embranquecer o país, traduzido em violências econômicas e simbólicas, não foi capaz de apagar a força das marcas da resistência cultural negra. Pois é a cultura negra quem dá a identidade nacional. É a negritude que faz o Brasil ser interessante para um europeu ou um americano.
  7. É a marca negra para além do futebol, da culinária e do Carnaval?
    Tudo de grande excelência no Brasil é eivado de negritude, só que embranquecido. Uma vez eu li uma entrevista do João Gilberto. Ele dizia que, sempre que perguntavam para ele: Que música é essa que você faz? Ele respondia: Eu faço samba. Até que o empresário dele disse: Pare de falar em samba. Daqui para frente o que você faz se chama bossa nova. Desnecessário dizer que a bossa novatem origem no samba e no jazz americano, que são expressões do patrimônio cultural negro. No mundo inteiro, artistas de vanguarda têm bebido na nascente da cultura negra. Verdade que, na sequência, trata o produto como algo novo e destituído da sua negritude. Novamente, o embranquecimento. É um processo de expropriação, transformação e negação da origem.
  8. Machado de Assis?
    Pois é. O maior escritor brasileiro é negro. Mas, historicamente, a cultura branca hegemônica se incumbiu de embranquecê-lo. Nós, do movimento negro, vamos nos incumbindo de enegrecê-lo. Houve alguém que chegou a dizer, se não me engano Olavo Bilac, que Machado de Assisnão é um negro, é um grego. Outro exemplo é do Milton Santos(1926-2001). Esse geógrafo negro tem reconhecimento internacional. Recebeu prêmios importantíssimos. Só que, quando se fala de Milton Santos, omitem sua cor. É um expediente para ocultar a negritude desses expoentes. É como se só fosse permitido exaltar o negro nas manifestações folclorizadas e folclorizantes. Essa situação é outra dimensão importante da negação da diversidade. Se o Brasil tivesse reserva moral, disposição e vontade política para respeitar e valorizar a diversidade, as crianças aprenderiam nas escolas a reconhecer a contribuição dos negros brasileiros em todas as áreas.
  9. O Brasil está preparado para ter um Barack Obama?
    Ainda estamos muito longe de eleger um presidente da República negro. Obamafoi resultado de uma construção histórica. O racismo brasileiro foi e é mais nefasto do que o apartheidsul-africano e a segregação americana. Explico: nos Estados Unidos, mesmo num contexto de segregação legal, o Estado americano assegurou que os negros pudessem ter escolas e universidades próprias, hospitais próprios, igrejas próprias. Ou seja, criaram equipamentos sociais, eram de pior qualidade, mas existentes. Semelhante ao apartheid sul-africano. Nos dois países proliferaram líderes políticos, empresários e intelectuais negros. Enquanto no Brasil o abandono social dos negros no pós-abolição foi completo, livres para morrer à míngua nas sarjetas do país, sem trabalho, sem direito à educação, sem moradia, sem liberdade de culto etc.
  10. Estamos na segunda década do século 21. O Brasil avançou na questão racial?
    Avançamos. A prova disso é a questão racial estar na agenda pública nacional. Sabe por que avançamos? Porque avançou a consciência negra. E por que avançou a consciência negra? Porque avançou o movimento negro. Por outro lado, o debate público acerca da questão racial se faz sem os negros. Mesmo aí o sujeito político negro é mais um ocultado, desqualificado. Parece que ainda estamos no século 19, em um embate entre abolicionistas e escravocratas. Mas, mesmo com todos esses senões, digo que avançamos, sim. Outro ganho maravilhoso para os negros é que a hegemonia branca teve que sair do seu conforto histórico da reiteração da democracia racial. A partir da discussão de cotas, do Estatuto da Igualdade Raciale que tais, foi instaurado um conglomerado midiático, um verdadeiro pelourinhoeletrônico contra as ações afirmativas e políticas de promoção da igualdade racial. Por que são contra as cotas raciais nas universidades? Porque a universidade sempre foi um elemento estrutural no processo de reprodução das elites nacionais. Democratizar o acesso à universidade põe em risco iminente essa reprodução. Então, pau nas cotas. O lado positivo? Os racistas perderam a máscara.
  11. Qual a importância do 20 de Novembro – Dia Nacional da Consciência Negra?
    Há heróis e fatos históricos mortos e esquecidos. E há heróis e fatos históricos vivos e renascidos pela memória popular. É o caso da saga de Palmares e seu líder Zumbi. O 20 de Novembro, que foi uma data proposta pelo intelectual negro Oliveira Silveira(1941-2009), homenageia um herói, o Zumbi dos Palmares, que segue sendo festejado. Ele é um símbolo de resistência. É reconhecido pela maior parte dos brasileiros. Em torno dessa data, tem atividades no país todo, se mobilizam prefeituras, escolas. Em qualquer estado do país tem alguma atividade, por mais modesta que seja. É o único feriado, fora o de Nossa Senhora Aparecida–  que, aliás, é preta –  com poder de mobilização.

Disponível em: /http:<//fernandapompeu.com.br/entrevista-com-sueli-carneiro/>, Acesso em: 16 jun. 2017.

Clara Charf: todas as lutas

Clara Charf todas as lutas

Por Fernanda Pompeu

A blogueira, Clara Charf, Patrícia Negrão

No 17 de julho de 2017, Clara Charf soprou 92 velinhas. Ela me disse que não esperava chegar nessa idade, mas estava feliz com o fato. Eu conheci a Clara muito antes dela me conhecer. A partir de 1980 – quando estudantes, trabalhadores, artistas, intelectuais gritavam nas ruas Abaixo a Ditadura! Viva as Liberdades Democráticas! Diretas Já! – Clara era figura obrigatória nos palanques improvisados. Ela aparecia ao lado da Therezinha Zerbini (1928-2015) – outra guerreira incansável. Nós – os jovens – olhávamos para as duas com sentimento ambíguo – agradecidos pela solidariedade e desconfiados de suas idades.

Águas rolaram. Em 2004, finalmente pude conhecer a Clara pessoalmente. Trabalhei como redatora no livro Brasileiras Guerreiras da Paz – conjunto de entrevistas com 52 candidatas brasileiras ao Prêmio Nobel da Paz de 2005. O livro foi feito por mim, Patrícia Negrão e Carla Rodrigues. A coordenação coube a Clara Charf. Nosso encontro foi privilégio para mim e creio que nos tornamos amigas de vida.  O texto que se segue foi escrito originalmente para o Portal Yahoo! Trata-se de um perfil, ou seja, de uma fotografia.

A garota
Clara Charf esbanja uma energia de fazer inveja a muitas meninas na casa dos 20. É fato que hoje ela usa bengala e sua cabeleira é branca como a neve canadense. No seu currículo há uma marca: Clara sempre contribuiu para as políticas, campanhas, programas que apoiam os direitos das mulheres. Ela explica: Por toda a minha vida lutei para que as mulheres fossem livres. Que tivessem liberdade para dizer sim ou não. Liberdade para casar ou para ficar solteira. Para ter filhos ou para não tê-los. Liberdade para escolher a profissão que desejassem.

No caso dela, o discurso está colado à prática. Ela foi aeromoça, bancária, tradutora, taquígrafa. Todos esses ofícios em uma época em que não era comum moças brancas de classe média trabalharem fora de casa. Filha de Ester e Gdal, judeus russos, que imigraram para o Brasil fugindo da perseguição antissemita, Clara Charf passou a infância em Maceió e primeira juventude no Recife. Em 1946, resolveu tentar a vida e o sustento no Rio de Janeiro, então capital federal.

Foi na cidade maravilhosa que ela arrumou emprego de aeromoça na Aerovias Brasil. Foi também no Rio que ela conheceu seu grande amor. E único, ela frisa. O amor respondia pelo nome de Carlos Marighella, o guerrilheiro que a ditadura militar transformou em inimigo número um. Na companhia dele, ela conheceu a excitante vida da militância política e a dureza da clandestinidade. Foi uma das primeiras mulheres a terem seus direitos políticos cassados. Marighella foi assassinado em 1969 pela polícia paulista. Viúva e dolorida, ela partiu para o exílio de 10 anos em Cuba, onde ganhou a vida como tradutora.

Retornou ao Brasil com a Anistia de 1979. Ela estava com 53 anos. Mergulhou na luta pela memória de Carlos Marighella e pela efetiva redemocratização do país. Em 1980, foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores, o PT. Partido do qual nunca se afastou. Trabalhou com a prefeita Luiza Erundina (gestão de 1989 a 1993). Mas em nenhum momento se esqueceu da batalha das mulheres. Ela diz: Sempre militei no movimento político e no movimento de mulheres. Acredito que essas duas frentes estão intimamente relacionadas. A mulher não está solta na história e nem a história existe sem a mulher.

Talentos de Clara
Um dos maiores talentos de Clara Charf é falar em público. Convidada inúmeras vezes para se sentar à mesa de debates, a cabeleira branca derrama uma sedução irrecusável. Ela dá a receita: Eu não escrevo nunca o que vou falar. Chego e observo quem são as pessoas na plateia. Jovens? Maduros? Trabalhadoras? Militantes? Aí vou me soltando e acaba dando certo. Esse poder de improvisação só é possível para quem tem dentro da cartola larga experiência.

Outro talento é o de contadora de histórias. E são muitas! Uma das mais saborosas foi sua participação na famosa CampanhaO petróleo é nosso, que acabaria criando a PetrobrasNaquela época, início da década de 1950, era difícil envolver as mulheres em uma demanda política. Então fiquei sabendo que na fabricação do batom se usa um subproduto de petróleo. Ele que faz o batom se fixar nos lábios. Daí, eu perguntava para as moças se elas sabiam disso. Era uma forma de envolvê-las na Campanha, Clara lembra morrendo de rir.

Na atualidade, Clara é presidenta da Associação Mulheres pela Pazuma ONG com sede no centro de São Paulo e coordenada por Vera VieiraQuando a gente fala de paz não é a quietude dos cemitérios. Acreditamos que paz é comida boa, moradia, educação, cultura. Paz como qualidade de vida para todos, Clara explica com um jeitinho sedutor que encanta seus ouvintes. A Associação nasceu de um projeto que selecionou 1000 mulheres, em todo o mundo, para concorrer coletivamente ao Prêmio Nobel da Paz de 2005. A sede do projeto é na Suíça. Fui convidada para coordenar os trabalhos no Brasilonde 52 mulheres foram indicadas ao Prêmio.

Um valor bem ressaltado nos trabalhos de Clara Charf é a expressão da diversidade. Entre as 52 brasileiras indicadas, há doutoras, analfabetas, brancas, negras, amarelas. Gente da cidade e do campo. Diversidade significa inclusão e uma melhor divisão do poder. Clara conta: Não levamos o Prêmio Nobel, mas seguimos com o trabalho. Editamos um livro Brasileiras Guerreiras da Paz com perfis das candidatas do Brasil e seguimos com seminários e exposições. Hoje, o grande desafio da Ong é incluir a participação dos homens no enfrentamento à violência doméstica. Pois a única maneira de acabar com a violência é envolver mulheres e homens na questão.

Lutar parece ser o verbo do coração de Clara Charf. Toda sua energia está na ação. Ela nunca deixa para o período da tarde o que pode resolver logo de manhã. De repente, esse é o segredo que mantém esta senhora ligada na tomada dos movimentos do mundo.

 

08 de Março – Paramos, resistimos e denunciamos

08 de Março – Paramos, resistimos e denunciamos

No dia 21 de janeiro de 2017 ocorreu, em Washington, EUA, a “Marcha das Mulheres contra Donald Trump”, na qual a ativista Angela Davis proferiu um breve, mas contundente discurso sobre as forças opressoras, capitalistas, misógenas, racistas, sexistas, e muitas outras, que não só assombram os EUA, no presente momento, como também o restante do mundo.

Segundo ela: “Os próximos 1459 dias da gestão Trump serão 1459 dias de resistência: Resistência nas ruas, nas escolas, no trabalho, resistência em nossa arte e em nossa música”.

E nós, também, resistiremos, como resistimos a cada dia. E, por isso, vamos Parar no dia 08 de março – Dia Internacional da Mulher. Mas, por que Parar? Podemos começar nossa Parada dizendo:

Paramos contra as forças opressoras, capitalistas, antidemocráticas, racistas, sexistas, misógenas, transfóbicas, homofóbicas e xenofóbicas.

Paramos contra a violência doméstica e o feminicídio, que transforma, cotidianamente, a vítima em culpada. O Brasil tem a 5ª maior taxa de assassinatos de mulheres no mundo e isso é inaceitável. Os assassinatos de mulheres negras aumentaram em 54% por cento nos últimos 10 anos, e as denúncias de estupro aumentaram em 51%.

Paramos contra o estupro “corretivo” cujas lésbicas e bissexuais sofrem em diversos países. O Brasil é campeão mundial de assassinatos de transgêneros. Ou seja, Paramos pelo direito de cada um/a exercer, livremente, sua sexualidade.

Paramos para reafirmar que não reconhecemos o governo golpista e muito menos aceitamos suas propostas machistas, racistas, privatistas, entreguistas e que ameaçam retirar direitos duramente conquistados pelas mulheres e pela

classe trabalhadora.

Paramos para exigir um Estado Democrático de Direitos, onde ninguém, fique de fora, à margem ou excluído da sociedade.

Paramos, porque somos mais da metade da população, e no entanto nossa voz ainda não é ouvida, ocupamos apenas 10% dos espaços de representação política no Brasil sem falar na gestão das grandes empresas e da mídia em geral.

Assim como Angela Davis, Paramos porque “acreditamos na Liberdade e não podemos descansar até que ela seja alcançada”.

25 de Julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha na Central do Brasil

25 de Julho: Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha na Central do Brasil.

Diversos atos político-culturais foram realizados nesta data e a Central do Brasil, no Rio de Janeiro, foi um dos cenários. “Tambor de Cumba”, “Instituto Black Bom”, “Roda das Yabás”, dentre outros grupos – protagonizados por mulheres negras – marcaram presença com sua distintas estratégias de resistência contra o racismo e o sexismo que subalternizam mulheres negras.